domingo, 7 de março de 2010

Rua João de Menezes

Quando era criança, o meu mundo era diferente. A rua era um grande campo de futebol, uma grande pista de corrida. E tinha o medo da velha que mancava e que quase não saía de casa e das coisas que diziam da bengala dela, e tinha o medo das histórias sobre os fantasmas que apareciam de noite no ônibus do velho que fazia turismo com velhos. Nossas brincadeiras eram eternas, e não existia tempo. Nossas pipas voavam bem além dos aviões que tanto nos acostumamos a ver. As estrelas pendiam do céu poucos palmos além da mangueira da casa da santarrona. E as nuvens se tranformavam em camelos, em dinossauros, em cachorros deitados quando passavam ali. Era só para a gente. Quando chovia, o vento vinha assustar a noite quando via a mangueira balançando. E alegrar ao ver aqueles transatlanticos de papel que colocava para descer a rua.

Quando era criança, era tudo diferente. Havia alegria suficiente para mim e para todos os lados da minha solidão.